Deixem as coisas morrerem
- Eric Campi
- há 13 horas
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Esse texto é mais um desabafo do que uma tentativa de organizar um pensamento coerente. Nós precisamos, imediatamente, deixar as coisas morrerem. Estamos vivendo uma zumbificação da cultura e de nós mesmos em que nada tem fim, apenas gira em falso.
Na quarta-feira, 26 de março, a Marvel fez uma live para revelar o elenco do novo filme dos Vingadores, “Avengers: Doomsday”. Além de confirmar as figuras carimbadas dos longas do estúdio, a jogada publicitária serviu para surpreender os fãs com o anúncio do retorno de atores e personagens de encarnações anteriores das adaptações de quadrinhos. A galera dos primeiros filmes dos X-Men, como Patrick Stewart e Ian McKellen, dará as caras novamente.
De novo e de novo e de novo, como num Dia da Marmota, estamos fadados a assistir às mesmas coisas se repetindo eternamente. E, talvez, em 2025 ninguém dê mais muita bola para a Marvel. Eu mesmo não vi os longas mais recentes do estúdio. Mas, é inegável que eles ditaram a indústria neste início de século XXI e que são um grande sintoma do que vivemos neste momento de capitalismo tardio.

O cinema é a única arte que surgiu já durante o capitalismo, então seria ingênuo exigir distância da lógica comercial. Porém, como diria Marx, essa forma de produção transforma tudo em mercadoria. Ou seja, não mais se produz por necessidade, por seu valor de uso, e sim por seu valor de troca. Para aumentar esse valor, ocorre junto o processo de fetichização.
É como se as coisas se tornassem algo a mais, meio mágicas, objeto de culto. Por exemplo, Tarantino tem fetiche por pé porque essa parte do corpo assume um valor sexual por inteiro. Numa espécie de metonímia, o fetiche transforma um pedaço em um ser total. E, enquanto as pessoas viram coisas pela alienação – já que o outro é sempre meu concorrente, meu inimigo que precisa ser deixado pra trás, que disputa a vida contra mim – as coisas se tornam pessoas. Precisam ser veneradas, amadas, cuidadas.
E ninguém quer ver a pessoa amada morrendo, não é mesmo? Por isso as coisas não acabam mais. Quando falamos no cinema, ainda entra a questão de que esta é uma arte cara e, portanto, apostar no já conhecido, no que já deu certo, é uma escolha que os acionistas consideram mais garantida.

Conseguimos lidar cada vez menos com o fim. Consumidores são infantilizados. Tudo querem, como crianças que esperneiam e se tacam no chão da loja para conseguir o brinquedinho novo. O capitalismo torna praticamente impossível dizer não a alguém. Dizer chega, acabou. No neoliberalismo, tudo você pode, tudo você consegue, é só se esforçar. Conquiste, seja, tenha.
Marmanjo com camisetinha de super-herói, que é fã do Elon Musk porque enxerga o Homem de Ferro, precisa sempre ser agradado. As redes sociais também agravam a questão. Nelas, somos realimentados constantemente apenas com o que concordamos. Nossos egos inflam, todos nos tornamos pequenos narcisistas. Ter algo negado é negar a nós mesmos.
Mas, poxa. Qual o grande problema de tudo isso? “Deixa os garoto brincar”. Como discutiu Heribaldo Maia neste vídeo sobre Mark Fisher, o problema é a falta do próximo passo. Na dialética hegeliana, todas as coisas carregam dentro de si a própria negação e superação. Enquanto tudo se repete, nada se transforma no que virá a seguir. É negado, inclusive, a possibilidade de sequer imaginar o que ainda está por vir, uma outra opção.

Pensando o cinema como produto de um tempo, parece claro que o nosso é o da repetição. O que já deveria ter morrido, mantem-se vivo, como um zumbi que não é mais capaz de agir por conta própria ou com consciência. Vivemos em um sistema moribundo, falido. O fascismo não para de ressurgir. O desejo é sempre do retorno ao passado idealizado. Sempre reacionário.
Deixemos as coisas morrerem. Não como um projeto de apagamento, que esquece a história para repetir o que ela tem de pior. Pelo contrário, o luto passa por rememorar, por lembrar. O movimento dialético também mantem, mas como semente para a superação. Lembremos dos mortos deixando que estes ocupem o lugar devido: a cova. Se queremos sair do estado das coisas tenebroso em que nos encontramos, temos que começar a enterrar o que não pode mais estar vivo.
Eric Campi (@ericcampi_) é jornalista e pós-graduado em Audiovisual. Já trabalhou em diversos veículos de jornalismo cultural, como na Revista CULT e nos sites Wikimetal e MadSound.
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